terça-feira, 26 de abril de 2011

Tirinhas - Profundas, nonsense e nem sempre engraçadas

Esta é minha primeira colaboração pro blog, então procurei algum assunto que já não tivesse passado por aqui. Escolhi três sites de quadrinhos “diferentes” sobre os quais eu queria escrever. Recomendo a visita. =)





Desenhado por David Hellman e escrito por Dale Beran, quando conheci as tirinhas, eles já haviam parado, ambos ocupados com seus próprios projetos paralelos. O arquivo do site ainda assim compensa uma visita: as tirinhas semi-autobiográficas seguem uma ordem cronológica, começam com os próprios autores decidindo lançar um webcomic, e vão gradualmente virando um delírio nonsense dos dois, a medida que as experiências e frustrações do cotidiano – incluindo, principalmente, as experiências e frustrações do próprio desenvolvimento artístico – vão tomando reflexos cada vez mais alegóricos na fantasia roteirizada por Dale e esculpida com os traços e cores oníricos de David. A lista de personagens inclui desde amigos e familiares reais dos autores a um cachorro fantasma e nuvens conscientes que invejam a vida efêmera dos seres humanos. A estranheza das tirinhas, vem, muitas vezes, de questões completamente bobas sendo frequentemente abordadas através de um pessimismo fantasioso, quase como num vídeo do PC Siqueira, com referências filosóficas/literárias inesperadas aperecendo aqui e ali, meio que perdidas no meio da bobagem. Pra que faça pelo menos um pouco de sentido, recomendo ler na ordem de publicação do arquivo.


O PBF começou como tirinha de um jornal de universidade, e hoje é também webcomic (apesar de atualizações serem muito raras por lá agora: em 2 anos que conheço o site, só vi 3 tirinhas novas serem postadas). As tirinhas variam do humor negro ao surreal, passando por histórias meramente absurdas, sendo todas elas independentes umas das outras, e praticamente não havendo personagens fixos. O traço de Nicholas Gurewitch também varia muito de uma história pra outra, mas é marcado por algumas características bastante recorrentes: as tirinhas de temática aparentemente mais lúdica, são geralmente as mais chocantes no final. Apesar de uma visível precisão nos desenhos quando quer, Gurewitch também opta, na maioria das vezes, por desenhar as pessoas nas suas histórias de forma pouco detalhada, quase rascunhos, como bonecos idênticos moldados do mesmo marshmallow, contrastando com seus belos robôs, alienígenas viscerais, animais fofinhos e paisagens imaginárias, como o Inferno, ou uma Terra ancestral onde dinossauros inteligentes decidem que seu avançadíssimo império já foi longe demais.


Do brasileiro Ricardo Yoshio Okama Tokumoto – RYOT – é, na minha opinião, o site com as tirinhas mais belas (e não estou falando só do traço, claro) feitas no Brasil. Frequentemente reclamando, não só nos posts que acompanham os desenhos, mas nas próprias tirinhas, dos prazos ou às vezes de uma repentina falta de inspiração (sempre contornada) o autor, que até pouco tempo ainda era estudante, consegue fazer o leitor se interessar pela prórpia produção dos quadrinhos. Mas RYOT não se limita a histórias autobiográficas, embora tirinhas tradicionais dificilmente seja o que você encontra por lá: muitas vezes sequer chegam a ser “histórias”, podem ser só uma epifania do autor, ou uma desculpa para fazer referências secretas a uma música do R.E.M., ou ainda, algo que remeta ao absurdo e o pessimismo do Perry Bible Fellowship e do A Lesson Is Learned, mas sempre dotado de uma sensibilidade raramente encontrada assim, misturada tão homgeneamente com um talento do tamanho do de RYOT.

Um comentário:

RYOT disse...

adorei a citação, muito obrigado!

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